Rescisão Durante Afastamento INSS 2026

Pode ser demitido durante afastamento pelo INSS? Entenda a suspensão do contrato, a estabilidade pós-alta e o que acontece com FGTS e verbas rescisórias.

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Uma das situações mais delicadas no Direito do Trabalho é a que envolve trabalhadores afastados pelo INSS. A dúvida mais comum é: posso ser demitido enquanto estou recebendo auxílio-doença? A resposta depende do tipo de afastamento — e as consequências para o empregador que age de forma irregular são severas.

Neste guia você vai entender as regras de suspensão do contrato, estabilidade após a alta, FGTS durante o afastamento e como funciona a rescisão em cada cenário.

1. Tipos de afastamento pelo INSS

O INSS classifica os afastamentos por saúde em duas categorias principais, com regras completamente diferentes quanto à estabilidade e ao FGTS:

B91 — Acidentário

Acidente de trabalho ou doença ocupacional

  • Acidente ocorrido durante o trabalho ou trajeto
  • Doença causada ou agravada pelo trabalho
  • Gera estabilidade de 12 meses após a alta
  • FGTS depositado durante todo o afastamento
  • Emite-se CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho)
B31 — Previdenciário

Doença comum (não relacionada ao trabalho)

  • Doenças sem relação com a atividade profissional
  • Não gera estabilidade automática ao trabalhador
  • FGTS suspenso a partir do 16º dia
  • Não exige emissão de CAT
  • Demissão possível, mas arriscada (ver regras)
⚠️ Atenção ao enquadramento do benefício O enquadramento como B31 ou B91 é determinado pelo INSS na perícia médica. Se o trabalhador acredita que a doença tem relação com o trabalho e o INSS enquadrou como B31, é possível contestar via processo administrativo ou judicial. O enquadramento correto pode fazer grande diferença nos direitos de estabilidade.

2. Suspensão do contrato durante o afastamento

Quando o trabalhador é afastado pelo INSS por mais de 15 dias, o contrato de trabalho fica suspenso — não extinto. Isso significa que:

3. Os primeiros 15 dias: quem paga?

A responsabilidade pelo pagamento durante o afastamento é dividida entre empregador e INSS:

Dia 1 ao 15 Responsabilidade do empregador

O empregador paga o salário integral dos primeiros 15 dias de afastamento contínuo, independentemente do tipo (B31 ou B91). Esse período não é reembolsado pelo INSS.

A partir do Dia 16 Responsabilidade do INSS

A partir do 16º dia, o INSS assume o pagamento do benefício (auxílio-doença). O trabalhador deve ter passado pela perícia médica e ter o benefício aprovado. O empregador para de pagar o salário nesse período.

Alta médica Retorno ao trabalho

Após a alta do INSS, o trabalhador deve retornar ao trabalho. O empregador é obrigado a reintegrá-lo na mesma função ou equivalente. Em caso de B91, inicia-se o período de estabilidade de 12 meses.

💡 Afastamentos repetidos Se o trabalhador retornar ao trabalho e se afastar novamente dentro de 60 dias pela mesma doença, os períodos são somados. Ou seja, se ficou 10 dias afastado, voltou 30 dias e se afastou novamente pela mesma doença, o empregador só paga mais 5 dias antes do INSS assumir (para completar os 15 dias totais).

4. FGTS durante o afastamento

A obrigatoriedade de depósito do FGTS durante o afastamento depende do tipo de benefício:

PeríodoB31 — Doença comumB91 — Acidente/doença ocupacional
Dias 1 a 15 ✔ Empregador deposita normalmente ✔ Empregador deposita normalmente
A partir do dia 16 ✗ Depósito suspenso ✔ Empregador continua depositando
Período de estabilidade (pós-alta B91) N/A ✔ Depósito normal retomado
⚠️ FGTS não depositado durante B91 Se o empregador não depositou o FGTS durante o afastamento por acidente de trabalho ou doença ocupacional (B91), está descumprindo obrigação legal. O trabalhador pode exigir os valores não depositados via reclamação trabalhista, com juros e correção monetária.

5. Pode ser demitido durante o afastamento?

Esta é a pergunta mais comum — e a resposta tem nuances importantes:

Durante o afastamento ativo (benefício em vigor)

Enquanto o trabalhador está recebendo o benefício do INSS (B31 ou B91), o contrato está suspenso e a demissão sem justa causa é considerada nula pela jurisprudência trabalhista. O TST entende que não é possível rescindir o contrato durante a suspensão, pois não há contrato ativo para ser rescindido.

📋 O que acontece se a empresa tentar demitir durante o afastamento A demissão é considerada sem efeito. O trabalhador pode ajuizar reclamação trabalhista para anular a rescisão e obrigar a empresa a aguardar o término do afastamento. Após a alta, o trabalhador retorna ao emprego — e, em caso de B91, ainda tem estabilidade de 12 meses.

Após a alta médica — doença comum (B31)

No caso de doença comum, após a alta do INSS, o trabalhador não tem estabilidade automática. O empregador pode demiti-lo sem justa causa normalmente, respeitando o aviso prévio e pagando todas as verbas rescisórias. Porém, a demissão logo após a alta pode ser questionada judicialmente como discriminatória, especialmente se a doença ainda incapacitar o trabalhador.

Após a alta médica — acidente de trabalho (B91)

Neste caso, o trabalhador tem estabilidade garantida de 12 meses após o término do benefício (ver seção seguinte). A demissão sem justa causa nesse período é vedada.

6. Estabilidade de 12 meses após a alta (B91)

O art. 118 da Lei nº 8.213/1991 garante ao trabalhador que sofreu acidente de trabalho ou doença ocupacional uma estabilidade no emprego pelo prazo de 12 meses após a cessação do auxílio-doença acidentário (B91).

SituaçãoRegra
Demissão sem justa causa durante a estabilidade Vedada — demissão é nula
Demissão por justa causa durante a estabilidade Permitida, desde que comprovada
Pedido de demissão do trabalhador durante a estabilidade Permitido — estabilidade é renunciável pelo trabalhador
Acordo mútuo de rescisão durante a estabilidade Possível, com anuência do trabalhador e sindicato (recomendado)
Se demitido ilegalmente durante a estabilidade Direito à reintegração ou indenização do período restante
💡 Estabilidade ampliada por convenção coletiva Algumas categorias profissionais têm estabilidade pós-acidente ampliada para 18 ou 24 meses via convenção coletiva de trabalho. Consulte a CCT da sua categoria para verificar se há cláusula nesse sentido.

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7. Verbas rescisórias após o período de afastamento

Quando a rescisão ocorre legitimamente após o fim da estabilidade (ou em casos de doença comum sem estabilidade), as verbas rescisórias seguem as regras padrão da CLT, com algumas particularidades:

VerbaB31 — Doença comumB91 — Acidente/ocupacional
Saldo de salário Dias trabalhados no mês da rescisão Dias trabalhados no mês da rescisão
Aviso prévio Normal (30 + 3 dias/ano) Normal — o período de afastamento não conta para o aviso
13º proporcional Meses trabalhados no ano (afastamento B31 não conta) Meses trabalhados + período de afastamento B91 (conta integralmente)
Férias proporcionais Período aquisitivo não inclui meses de afastamento B31 Período de afastamento B91 conta para o período aquisitivo
Multa FGTS (40%) Sobre os depósitos realizados (sem os meses B31 suspensos) Sobre todos os depósitos (inclusive os do período B91)
📊 Exemplo — Trabalhador com B91 demitido após estabilidade João sofreu acidente de trabalho em março/2025, ficou afastado 8 meses (B91) e retornou em novembro/2025. A estabilidade de 12 meses venceu em novembro/2026. Em dezembro/2026 foi demitido sem justa causa com 5 anos de empresa e salário de R$ 3.200.

• O período de afastamento (8 meses de B91) conta para 13º e férias
• O FGTS foi depositado durante todo o B91 — a multa de 40% incide sobre esse saldo também
• Aviso prévio: 30 + (4 × 3) = 42 dias
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8. Perguntas frequentes

Durante o benefício ativo, o contrato está suspenso e a demissão sem justa causa é considerada nula pela jurisprudência trabalhista. O empregador deve aguardar a alta médica. Em caso de B91 (acidente), ainda há estabilidade de 12 meses após a alta.

O empregador paga os primeiros 15 dias de afastamento integralmente. A partir do 16º dia, o INSS paga o benefício diretamente ao trabalhador. O empregador fica isento do salário, mas mantém outras obrigações (FGTS em B91, plano de saúde se previsto em contrato ou CCT).

Depende do tipo: em B91 (acidente de trabalho), o empregador é obrigado a depositar o FGTS durante todo o afastamento. Em B31 (doença comum), o depósito fica suspenso a partir do 16º dia de afastamento.

O trabalhador com B91 tem garantia de emprego por 12 meses após a alta do INSS (art. 118 da Lei nº 8.213/1991). Nesse período, o empregador não pode demiti-lo sem justa causa. Se isso ocorrer, o trabalhador pode optar pela reintegração ao emprego ou pela indenização do período de estabilidade restante.

No caso de B91 (acidente de trabalho), o período de afastamento conta integralmente para férias, 13º e tempo de serviço. No caso de B31 (doença comum), os meses de afastamento acima de 6 meses podem não ser computados no período aquisitivo de férias, conforme art. 133 da CLT.

Sim. A estabilidade protege contra demissão pelo empregador, mas o trabalhador pode pedir demissão voluntariamente a qualquer momento, inclusive durante o afastamento. Nesse caso, perde o direito à multa de 40% do FGTS e ao seguro-desemprego, mas recebe as demais verbas proporcionais devidas.

Veja também:

Base legal: Lei nº 8.213/1991 — art. 118 (estabilidade acidentária) · CLT — art. 133 (férias e afastamento) · TST — Súmula 378 (estabilidade acidentária)

Aviso legal: Este guia tem caráter informativo. Situações envolvendo afastamento e rescisão são complexas e dependem do enquadramento do benefício, da CCT da categoria e do histórico do contrato. Consulte um advogado trabalhista para análise do seu caso.